Stablecoin em detalhes

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Entendendo o funcionamento de um dos tokens mais importantes para a estabilidade do mercado de criptoativos.

A volatilidade do mercado de criptoativos é uma característica conhecida até mesmo por aqueles que não os utilizam. Em razão de ser um mercado novo - o criptoativo mais "velho" é o Bitcoin, com 12 anos de existência - e com inovações surgindo diariamente, a alteração na precificação dos ativos é algo natural, seja por deter um grande número de especuladores investindo, seja por muitos dos ativos deterem pouca liquidez em suas negociações.

Fonte: Gemini

A demanda por um instrumento financeiro estável trouxe o desenvolvimento de criptoativos lastreados a moedas correntes em países - EUR, USD, AUD, YEN, etc -, dando destaque para a forte presença do dólar neste mercado. Em contrapartida, alguns projetos elaboraram maneiras de trazer estabilidade a volatilidade dos criptoativos. Independente do modelo, os criptoativos que visam manter um valor estável são definidos como stablecoins.

Atingindo um volume de 411 bilhões de dólares no mês de novembro, elas tornaram-se essenciais para subsistência do mercado, sendo instrumento importante em corretoras centralizadas para negociação de criptoativos e ferramenta indispensável para protocolos DeFi.

Fonte: Dune Analytics

Neste mercado, há diferentes critérios estabelecidos pelos desenvolvedores antes de sua concepção. Estes, devem ser analisados e compreendidos para estar ciente das vantagens e riscos associados a cada uma das stablecoins existentes.

Estratégia utilizada para manter a estabilidade do valor

Para conseguir manter estável o valor dos criptoativos projetados, os desenvolvedores necessitam usar diferentes mecanismos para cumprir esta tarefa. A forma escolhida para manter sua estabilidade irá definir o nível e o tipo de risco a que os detentores da stablecoin estarão sujeitos.

Depósito de criptoativos de terceiros como colaterais¹ para emissão de stablecoins

Para os usuários poderem ter acesso a tokens estáveis, é exigido o depósito de criptoativos, permitindo-os efetuar o empréstimo. Usualmente, os usuários demandam deixar custodiado no dapp uma porcentagem maior do que a emprestada.

A MakerDAO, emissora da DAI, utiliza esse conceito: os interessados em adquirir DAI a partir do protocolo, precisam depositar em seus contratos inteligentes uma porcentagem do valor superior quantia que será emprestada. Somente assim, permite-se aos usuários mintar DAI.

Com esse mecanismo, caso o valor dos ativos depositados como ETH caia de preço rapidamente por um evento negativo no mercado, ainda será suficiente para garantir o valor emprestado em stablecoins. No entanto, ocorrendo uma queda de altas proporções como a que houve em março de 2020, muitos usuários podem ser liquidados. A liquidação em massa pode incorrer na perda de paridade da stablecoin e, por sua vez, danos a todos os seus detentores.

Depósito de criptoativos nativos como colaterais para emissão de stablecoins

Apesar de muito semelhante à estratégia utilizada por dapps como a MakerDAO - principalmente a busca pela estabilidade baseada no depósito de ativos para empréstimos sobrecolaterizados -, os protocolos que adotam o uso de um token nativo como colateral para emissão de stablecoins próprias tem vantagens e desvantagens.

Como exemplo, usemos a Terra: em função de ter posse de todos os mecanismos de emissão, queima, tokens em circulação ou liquidez do LUNA , a Terra consegue deter maior controle sobre os tokens utilizados como colaterais para emissão do UST. Assim, não fica exposta a falhas, rug pulls, etc em tokens de protocolos utilizados como colaterais. Porém, para conseguir manter a estabilidade do valor de sua stablecoin, a Terra precisa utilizar algorítimos eficientes, capazes de manter o UST estável e em paridade com o dólar a partir de mecanismos próprios desenvolvidos pelo protocolo. Qualquer erro no código elaborado pelos desenvolvedores poderá incorrer na perda de paridade e, consequentemente, prejuízos aos detentores do token.

Este tipo de stablecoin é chamada de algorítmica.

Em junho desse ano, a Iron Finance passou por um caso semelhante, demonstrando ao mercado o risco dessa forma adotada por protocolos para criação de stablecoins.

Ativos custodiados para colaterizar a emissão das stablecoins.

MakerDAO foi o primeiro protocolo a emitir uma stablecoin nativa igualmente descentralizada. No princípio, somente era aceito dos usuários o depósito de ETH para conseguir mintar DAI, ou seja, o único risco a estabilidade da stablecoin era a queda do valor do criptoativo. Contudo, com a criação de outros protocolos concorrentes atraindo a liquidez antes existente na Maker, esta viu-se obrigado a inserir mais opções de colaterais para garantir uma melhor experiência aos usuários e, claro, arrecadar mais dinheiro aos seus cofres. Hoje, o dapp conta com depósitos de LPs de UNI/USDC, wraps de depósitos de ETH na Lido, BTC entre outros criptoativos.

A Abracadabra Money é outro dapp que traz propostas diferentes para emissão de sua stablecoin, a MIM - Magic Internet Money -. Diferente de sua concorrente direta citada cima, a Abracadabra busca não só utilizar criptoativos dos mais diversos possíveis, mas também as representações destes em pools de outros protocolos.

Rapidamente, para fins de compreensão: a Abracadabra Money possui um colateral denominado cvxtricrypto2. Este, não é um token adquirido numa DEX. Para obtê-lo, é necessário o depósito de USDT, WBTC e/ou WETH na pool tricrypto2 da Curve Finance; e, ao invés de depositar seus 3CrvCrypto2 - representação do depósito do dinheiro na Curve² - custodiá-los na Convex Finance. Ao depositar estes tokens na Convex, o usuário receberá em sua wallet o cvxtricrypto2 e poderá utiliza-lo como colateral para emitir a stablecoin da Abracadabra, a MIM.

Fonte: Abracadabra Money

A inovação presente em DeFi permite a criação de inúmeras formas de interação entre os protocolos, justificando o porquê destes serem chamados de money legos. Mesmo sendo interessante a utilidade desenvolvida por dapps, deve-se ter consciência que, quanto mais protocolos forem envolvidos no fornecimento do colateral, mais riscos os usuários e o emissor do protocolo estará sujeito. É necessária uma boa governança e monitoramento constante de todos os envolvidos para garantir a manutenção da paridade do valor da stablecoin.

No entanto, a preocupação com os ativos custodiantes para garantir a estabilidade do valor das stablecoins não é figura restrita a protocolos descentralizados. Pelo contrário, o surgimento de novos tokens com paridade ao dólar ocorreu justamente pela desconfiança nos cofres da principal emissora do mercado: a Tether (USDT). Por muito tempo, a Bitfinex, empresa "parceira" da Tether, foi uma das únicas responsáveis no mercado a prover stablecoins aos usuários. Esta, sempre manteve a alegação de que todos os USDTs emitidos detinham a mesma quantidade em dólares sob custódia da Tether. Com o tempo, a empresa passou por diversos problemas, desde hacks, pressão regulatória e, principalmente, que suas stablecoins não era colaterizadas por dólares, mas por várias cartas de crédito de qualidade questionável.

Importante trazer essa situação para deixar claro: não são apenas protocolos descentralizados que podem estar sujeitos a riscos. Entidades centralizadas, se não geridas da maneira correta, causam um dano ainda maior aos usuários.
Outras empresas centralizadas responsáveis pela emissão de stablecoins, como a Circle - USDC -, Paxos - USDP e BUSD - mantém em seus sites, informações constantes de que mantém dólares e títulos que garantem o valor dos tokens emitidos.

Estruturação dos mecanismos de decisões relativas a características das stablecoins

Aqui diferenciam-se dois tipos de emissores de stablecoins: os centralizados e os descentralizados.

Fonte: Developers DAO

Tether, Circle, Paxos, Gemini são todas empresas responsáveis por emitir tokens com paridade ao dólar garantidos por dólares, títulos públicos e outros ativos do mundo de finanças tradicionais. A clareza nem sempre é uma característica presente em muitos deles e todas as decisões tomadas para a manutenção da estabilidade dos tokens são tomadas por funcionários das empresas. Sendo assim, o controle de todos os mecanismos inerentes a stablecoin estão sob posse de seus emissores e os detentores de USDT, USDC, BUSD, USDP e GUSD não detém nenhuma influência ou opinião sobre as melhores práticas para as empresas.

Porém, com o advento das DAOs, a descentralização nas decisões é característica marcante em muitos protocolos. A MakerDAO, emissora da DAI, define critérios importantes para seu funcionamento como porcentagem de colaterização, juros sobre empréstimo ou listagem de novos criptoativos com base em votações feitas via governança por detentores do MKR, seu token nativo. Todos conseguem propor ideias aos usuários da MakerDAO e estes podem votar na aprovação delas ou não. A mesma lógica, aplica-se a outros emissores de stablecoins, como a Abracadabra Money, por exemplo.

Aqui, a importância reside principalmente na escolha do uso de stablecoins transparentes quanto as suas decisões e qualidade/quantia de ativos custodiados. Felizmente, graças a blockchain, protocolos DeFi trazem em sua essência a transparência e são melhores alternativas tratando-se de stablecoins.

Paridade de stablecoins a ativos diferentes de moedas fiat

Este último critério, deve ser observado apenas para modelos novos de tokens estáveis que tem surgido no universo cripto. Com a pressão regulatória sobre criptoativos lastreados ao dólar, desenvolvedores trouxeram um novo modelo de stablecoin: lastreados a criptoativos não-estáveis³. A Reflexer Labs é uma delas e propõe um tipo diferente de estabilidade: está não representa o valor de uma moeda fiat, mas reduz consideravelmente a volatilidade de criptoativos como o ETH. A lógica, é bem semelhante a da MakerDAO: usuários depositam ETH nos cofres da Reflexer Labs e mintam RAI, sua stablecoin. A diferença é que, ao invés deter paridade com o dólar, ela almeja amenizar a volatidade do ETH, ou seja, em variações do mercado positivas e negativas, RAI não irá aumentar ou diminuir de valor abruptamente.

Fonte: Um dos memes criados pela comunidade da Reflexer Labs (traduzido para o português)

Sua intenção, ao longo do projeto, é desenvolver cofres de WBTC, UNI e AAVE, para prover índices semelhantes ao RAI, mas colaterizados a partir de outros criptoativos não-estáveis.

Os mecanismos para amenizar a volatilidade detém certa complexidade, mas vale conferir a documentação para melhorar compreensão do projeto.

O lançamento da stablecoin da Shape Shift DAO

Através de uma parceria com a ICHI, protocolo especializado em desenvolver stablecoins para comunidades, a Shape Shift lançou no mês de novembro seu token nativo com paridade ao dólar: o oneFOX!

Fonte: ShapeShift DAO

A stablecoin da ShapeShift DAO é, a priori, descentralizada. Qualquer alteração necessária na estrutura do oneFOX deve ser realizada através de uma proposta a ser aceita via governança. A manutenção da estabilidade de seu valor é mantida com o uso de dois colaterais: 80% USDC e 20% FOX. Com isso, os detentores da stablecoin da Shape Shift não só terão um token estável colaterizado por um criptoativo nativo da DAO, mas também o USDC, uma das principais stablecoins no universo cripto

Utilizando a DEX da ICHI, os usuários serão capazes de mintar seus oneFOX em uma proporção de 80/20: 80% USDC e 20% FOX. Sob custódia de seus oneFOX, seus detentores podem depositá-los na pool existente dentro da ICHI, com o objetivo de prover liquidez ao protocolo. Em troca, os usuários receberão recompensas em ICHI, com uma rentabilidade de ~70% APR.

A inventividade do setor DeFi desenvolve constantemente novos modelos de stablecoin e é um setor promissor aos interessados não só em deter criptoativos estáveis, mas aqueles que buscam obter rentabilidade passiva sem se expor a volatilidade.
Para uma leitura aprofundada sobre o tema, recomendamos a leitura do How to DeFi Advanced, e-book produzido pela Coingecko, utilizado como fonte para informações trazidas aqui.
Conhece outros tipos de stablecoins que não foram trazidas aqui? Conte-nos nos comentários!

¹Colateral é o nome dado ao ativo depositado como garantia para a realização da emissão de stablecoins ou empréstimos.

²Este tipo de token é chamado de interest-bearing token.

³Tem-se dado a este tipo de stablecoin o nome de stableasset.


Artigo de Guilherme Barbosa, selecionado através do Fluxo de Informação e Globalização da ShapeShift DAO em 21/11/2021.